O boato e as fake news

A expressão “boato” já perdeu a força de outros tempos. Uma palavra fora de moda. Agora diz-se “fake news”, coisa mais “in”, mais dentro do ar dos tempos, muito “social media”, facebook, twitter e quejandos. Já não é a vizinha que de janela a janela difundia pecados de outras vizinhanças, essas mesmas que, tal repórteres de rua, sabiam as horas e o estado a que chegava a casa o Alberto da Clementina, coitada, com oito filhos para sustentar e um bêbado de madrugada sete dias por semana, para não deixar o vinho azedar. As “fake news” são coisa mais séria, já vão para além de ditos maldizentes sobre os deputados na nação, como classificá-los como “corja que suga o esforço dos contribuintes para passear em corredores de “Passos Perdidos””, sem que se apercebam que apunhalam liberdades e democracias que custaram a conquistar. Metem comunidades inteiras de cristãos nas suas variedades, muçulmanos nas suas diferenças, hindus, e outras religiões mais longínquas, porque estas movimentam ódios e irracionalidades várias ao nível comportamental e social. Metem governos inteiros de países com comunidades permeáveis a crendices, difundem o medo, espalham a necessidade do terror para combater outros miríficos terrores. E as comunidades ululam de indignação e o tipo que nunca conseguiu matar uma galinha, já era homem para estripar presidentes, juízes, bispos, imãs, rabinos ou um simples intérprete de festival da canção.

E eis que as grandes corporações apostam em campanhas publicitárias que valorizem informações, essas sim do seu ponto de vista autênticas, nas redes sociais e adesões dessas informações a serviços de agências digitais de “verificação de mensagem” (cheking, em inglês) como o Fact-Checking e o CrossCheck, cuja popularidade aumenta em larga escala no contexto contemporâneo.

Em suma, a democraticidade da informação trazida, aparentemente, pelos “social media”, traz novas necessidades e novas formas de trabalhar a informação e manipulá-la, se for caso disso.

Não estamos mais perto da verdade, estamos apenas com mais verdades à escolha. Nem por isso deixa de ser verdadeiro o que Machado de Assis escreveu há um ror de anos, bastando trocar boato pela expressão mais up to date:

“O boato é um ente invisível e impalpável, que fala como um homem, está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê de onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso.”

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